quarta-feira, 9 de outubro de 2019

TODO MUNDO QUER IR PARA O CÉU

Estamos cercados de cuidados para não morrer.
É fato que o homem da antiguidade morria com muito mais facilidade. Havia guerras que dizimavam jovens, e quando isso não acontecia era uma tragédia perder um dedo ou uma mão, ou até mesmo ter uma hemorragia. Na atualidade há um esforço mundial para que não haja mais guerra em parte alguma do planeta, a despeito da teimosia de alguns. No passado, homens mutilados eram homens
inutilizados. Hoje, alguém mutilado pode até ser presidente de uma nação. Os desastres naturais não podiam ser previstos, como furacões e erupções, e muita
gente era pega de surpresa com terremotos e tornados. Em nossos dias, quase todas as emissoras de rádio e televisão, aberta ou fechada, bem como toda a internet dá a previsão do tempo e avisa quando a coisa está para “ficar preta” – alusão à cor das nuvens, naturalmente. A expectativa de vida era mínima, 30 ou 40 anos, talvez, e ser velho era sinal de sucesso, pois era um indicativo que tal pessoa teve sabedoria e prudência suficientes para se manter vivo, e mesmo assim, há um salmista bíblico
que diz que velhice é um sinônimo de canseira e enfado. Hoje, o Guinnes World Records procura quem tem bem mais de 100, e pasmem – paga um prêmio milionário
pro vovozinho ou vovozinha que fez da linha do tempo uma espécie de “elástico do tempo”.
Nos tempos pós-modernos, evitamos o colesterol, o excesso de açúcar, praticamos exercícios com frequência, e se não o fazemos, existem intervenções cirúrgicas para desobstruir as artérias, cirurgias de redução de estômago para curar o diabetes ou mesmo obesidade. Oncologistas se superam a cada dia. Geriatras comemoram o sucesso na longevidade humana. Pediatras bombardeiam as crianças com uma gama imensa de vacinas. Se alguém nasce com algum “defeitinho de fabricação”, não há motivos para preocupação. Próteses auditivas, implantes, lentes, braços e pernas mecânicas garantem o bom funcionamento do corpo humano. Acabou a ereção? Viagra! Acabou o humor? Serotonina! Acabou a paciência? Terapia! Sobrou gordura? Lipoaspiração! Faltou músculo? Silicone! Boca murcha? Botox! Espirrou? Corra para o hospital porque pode ser virose ou alguma coisa letal que se disfarça de resfriado para enganar os “trouxas”. Ninguém mais morre de gripe, diarreia ou tuberculose. Só otário morre de malária ou febre amarela. Banimos a bexiga, a doença de chagas, a coqueluche e a tosse comprida. Ficou sem graça dizer que determinada música ou novela é a “coqueluche” do momento, simplesmente porque ninguém mais sane o que é “coqueluche”. O homem pós-moderno baniu termos como “velho” e “idoso”, preferindo dizer que alguém pertence à terceira idade, à melhor idade ou idade de ouro. Há uma verdadeira revolução na medicina, acontecendo bem debaixo dos nossos narizes, com um único intuito: esticar um pouco mais a linha do tempo de nossas vidas. Por que tamanho medo da morte? Será que o homem começou a entrar em descrédito quanto à vida futura, quanto ao céu e inferno e a existência de Deus? De
forma alguma! O homem ocidental nunca foi tão místico – observação desnecessária ao homem oriental. Há um verdadeiro modismo religioso tomando conta do consciente coletivo da humanidade. Há programas religiosos em todos os canais de televisão, sejam missas, cultos, ou novelas de cunho espiritualista. A purificação dos males causados pelos demônios entra em nossas casas e apartamentos, via cabo ou antena parabólica. A bênção da prosperidade, da união familiar, da saúde e da cura, a amarração do olho grande ou gordo, da inveja, do mau-olhado, bem como toda sorte de negatividade são figurinhas fáceis na telinha de qualquer pessoa. Deus nunca trabalhou tanto, obrigado a curar e abençoar pelos pastores engravatados que arrebanham multidões e desdenham de outros pastores que curam menos ou mais.
Deus nunca foi tão louvado e adorado pelos padres e freiras cantores, pelas comunidades evangélicas e cantores gospel em geral. Deus nunca foi tão incomodado
pelas orações chorosas e cheias de força, nos punhos de quem esmurra o próprio peito ou mesmo abre as mãos para o céu aguardando a bênção cair.
O que está acontecendo então com a humanidade? Simples! Queremos o céu!
Sim, o céu! Com todas as suas regalias e prazeres à nossa disposição, aqui e agora em nossa existência, se possível com as 50 virgens dos muçulmanos. Queremos o prazer e o regalo bem aqui no meio do nosso caos de violência, de ambição, de egoísmo, de ganância, de ódio, em meio às drogas, prostituição e corrupção. Pra que esperar a morte se eu posso ter tudo aqui e agora? E não interessa quem vai nos proporcionar isso tudo, se a medicina, a robótica, a engenharia química ou os poderes celestiais, porque nós queremos, queremos agora e podemos e vamos pagar muito bem por isso.
De resto, há uma verdade filosófica que ilustra essa ansiosa vontade de viver e de banir a morte. É uma expressão do grande escritor e filósofo blitziano, Sir Evandro Mesquita, que no auge de sua sapiência e sublimação disse: “eu não queria falar, mas agora eu vou dizer, todo mundo quer ir por céu, mas ninguém quer morrer”.

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